Olho Seco Neurogênico – Quando o Problema está nos Nervos

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A Síndrome do Olho Seco é uma condição multifatorial, frequentemente associada a fatores ambientais, disfunção das glândulas meibomianas ou doenças autoimunes. No entanto, uma forma menos conhecida e particularmente complexa é o Olho Seco Neurogênico. 

Esta variante não é causada primariamente por uma falta de produção lacrimal, mas por uma falha no sistema nervoso que controla essa produção. É uma doença de “desregulação”, na qual o cérebro não recebe ou não processa corretamente os sinais de que o olho precisa de lubrificação para seu melhor funcionamento. 

O artigo sobre o Olho Seco Neurogênico pretende esclarecer que esta forma específica da doença não é causada por uma simples falta de produção de lágrimas, mas por uma disfunção no sistema nervoso que quebra o ciclo de feedback essencial para a lubrificação ocular. 

Ele busca explicar que o problema central está nos nervos danificados da córnea, que falham em enviar o sinal de “secura” ao cérebro, resultando na falta de comando para a produção dos componentes do filme lacrimal, mesmo na presença de secura ocular real. 

A fisiologia: como deveria funcionar?

Para entender a patologia, é fundamental compreender a fisiologia normal. A superfície ocular é ricamente inervada por fibras nervosas sensoriais da divisão oftálmica do nervo trigêmeo (V1). Estas fibras têm uma dupla função:

Função Sensitiva Aferente: são os “sensores” da superfície do olho. Elas detectam sensações como tato, temperatura e, crucialmente, a sensação de secura ou irritação. Quando a lágrima se evapora ou a superfície fica irritada, estes nervos enviam um sinal de “alerta” para o núcleo do trigêmeo no cérebro.

Função Motora Eferente: em resposta a esse sinal, o cérebro, por meio de circuitos neuronais complexos, desencadeia respostas reflexas para proteger e lubrificar o olho. Essas respostas incluem:

  • Aumento da produção lacrimal pelas glândulas lacrimais; 
  • Aumento da produção de muco pelas células caliciformes; 
  • Liberação de lipídios pelas glândulas meibomianas para estabilizar o filme lacrimal; 
  • Piscar, para espalhar uniformemente a lágrima.

É um ciclo de feedback perfeito: os nervos sentem a secura e ordenam a sua própria lubrificação.

A ruptura do ciclo de funcionamento da produção lacrimal

Homem jovem com cabelo, barba e bigode castanhos, vestindo camisa xadrez azul e branco sobre camiseta branca, cerra os olhos em sinal de desconforto ocular.

No Olho Seco Neurogênico, há uma lesão ou disfunção nas terminações nervosas sensoriais da córnea. Esta lesão pode ser causada por:

  • Cirurgias Oculares: procedimentos como LASIK, PRK e cirurgia de catarata podem cortar ou danificar temporariamente os nervos corneanos. Na maioria das pessoas, eles se regeneram, mas em alguns casos, a função não retorna completamente.
  • Uso Prolongado de Lentes de Contato: o trauma crônico e a hipóxia (falta de oxigênio) podem levar a uma neuropatia corneana.
  • Infecções Virais: o vírus do herpes zoster (catapora) e herpes simples são neurotrópicos, ou seja, atacam diretamente os nervos, podendo causar danos permanentes.
  • Diabetes Mellitus: a neuropatia diabética periférica também pode afetar os pequenos nervos da córnea.  
  • Queimaduras Químicas ou Térmicas.

Com os nervos sensoriais danificados, o ciclo de feedback é interrompido. O cérebro não recebe mais o sinal correto de que a superfície ocular está seca. Consequentemente, não envia o comando para as glândulas lacrimais produzirem lágrimas, nem para as glândulas meibomianas liberarem lipídios. 

O resultado é uma superfície ocular seca e inflamada, mas com uma notável ausência da sensação de secura ou ardência que caracteriza outras formas de Olho Seco. Paradoxalmente, o paciente pode não sentir “olho seco”, mas o exame clínico revela claros sinais de secura e dano epitelial.

Sinais, sintomas e diagnóstico da condição.

Os sintomas podem ser atípicos. Em vez de ardência, o paciente pode queixar-se de:

  • Visão flutuante e embaçada; 
  • Sensação de corpo estranho; 
  • Olho vermelho crônico; 
  • Fotofobia (sensibilidade à luz); 
  • Lacrimejamento paradoxal (epífora), pois o dano neural pode causar reflexos erráticos.

O diagnóstico é feito pelo oftalmologista por meio de uma combinação de:

  • História clínica sugestiva, como no caso de início dos sintomas após cirurgia refrativa, por exemplo;
  • Exame que mostra sinais de olho seco (baixo teste de Schirmer, tempo de ruptura do filme lacrimal baixo, pontuação alta em corantes como Rosa Bengala ou Fluoresceína), mas com pouca sintomatologia subjetiva;
  • Estesiometria Corneana: exame que mede a sensibilidade da córnea, que estará reduzida.

Abordagem terapêutica – Além das lágrimas artificiais

O tratamento para o Olho Seco Neurogênico é desafiador e visa “enganar” o sistema ou estimular a regeneração nervosa:

  • Lubrificantes Intensivos: uso frequente de lágrimas artificiais sem conservantes, mesmo na ausência de sintomas, para proteger mecanicamente a superfície;
  • Anti-inflamatórios Tópicos: corticosteroides ou ciclosporina podem ser usados para controlar a inflamação, que é tanto causa quanto consequência do dano neural; 
  • Soro Autólogo: rico em fatores de crescimento, pode promover a cicatrização epitelial e, potencialmente, a regeneração nervosa.
  • Lentes de Contato Esclerais ou Terapêuticas: atuam como um curativo óptico, protegendo a córnea e mantendo um reservatório de líquido.
  • Terapia com Luz Pulsada (IPL) e Radiofrequência: estudos mostram que podem melhorar a função das glândulas e, possivelmente, a sensibilidade corneana.

O Olho Seco Neurogênico é uma condição debilitante que exige um alto nível de suspeita clínica. Seu manejo bem-sucedido depende do reconhecimento de que a raiz do problema está no sistema nervoso, demandando uma abordagem terapêutica mais abrangente e especializada. 

Close de um olho claro feminino que está recebendo uma gotinha de colírio para tratar o olho seco neurogênico.

Sendo assim, destacamos a importância de buscar uma consulta com o oftalmologista diante de qualquer suspeita de problema ocular, pois muitos distúrbios oculares podem ser assintomáticos em seus estágios iniciais, enquanto outros, podem ser sinais de condições graves que exigem intervenção imediata para evitar danos visuais permanentes. 

O autodiagnóstico e o atraso na procura de um especialista podem permitir que uma condição tratável progrida, transformando-se em uma lesão irreversível. Portanto, a avaliação precoce e precisa do oftalmologista não só oferece o diagnóstico correto e o tratamento mais eficaz, mas é a estratégia mais eficaz para preservar uma das funções mais preciosas: a visão.

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