Uso prolongado de corticoides e glaucoma: uma relação perigosa! 

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O glaucoma é uma neuropatia óptica progressiva, geralmente associada ao aumento da pressão intraocular (PIO), que pode levar a danos irreversíveis ao nervo óptico e perda de visão. Embora existam diferentes tipos da condição, uma causa frequentemente subestimada e evitável é o glaucoma induzido por corticoides, decorrente do uso prolongado desses medicamentos. 

Corticoides são amplamente prescritos para tratar doenças inflamatórias, alérgicas, autoimunes e respiratórias — como asma, rinite, dermatites, artrite reumatoide e doenças oculares inflamatórias. No entanto, o uso contínuo, seja por via sistêmica (oral ou injetável), tópica (colírios, pomadas, sprays nasais) ou inalatória, pode elevar perigosamente a pressão intraocular, desencadeando ou agravando um glaucoma.

Mecanismo de ação: como os corticoides aumentam a pressão ocular? 

O efeito hipertensivo ocular das medicações ocorre principalmente por meio do aumento da resistência ao fluxo de saída do humor aquoso, o líquido produzido no interior do olho que nutre estruturas e mantém a pressão intraocular.Os corticosteroides atuam nos receptores glicocorticoides presentes nas células do sistema de drenagem ocular (malha trabecular), induzindo alterações estruturais e funcionais. 

Entre os principais mecanismos estão o acúmulo de proteínas da matriz extracelular (como glicosaminoglicanos e fibronectina), a redução da atividade fagocítica das células trabeculares e alterações citoesqueléticas que tornam a malha trabecular mais rígida e menos eficiente em drenar o humor aquoso. O resultado é um aumento lento, mas progressivo, da pressão intraocular, frequentemente assintomático no início.

Quem tem maior risco? 

Médico auferindo a pressão de paciente feminina.

Nem todos os usuários de corticoides desenvolvem glaucoma. Cerca de 30% a 40% da população geral apresenta alguma elevação da PIO após uso prolongado, mas a resposta hipertensiva é mais intensa em determinados grupos. São considerados de alto risco:

  • Indivíduos com glaucoma preexistente ou história familiar de glaucoma;
  • Portadores de hipertensão ocular; 
  • Diabéticos e pessoas com miopia elevada; 
  • Crianças (que são particularmente sensíveis a esse tipo de medicação); 
  • Usuários de colírios corticoides (via tópica ocular) — estes apresentam maior risco devido à alta concentração local do medicamento.

A potência do corticoide também influencia: dexametasona e betametasona têm maior efeito hipertensivo que prednisolona ou hidrocortisona.

Sintomas e diagnóstico 

O grande perigo do glaucoma induzido por essas medicações é a ausência de sintomas iniciais. O paciente raramente percebe a elevação da pressão ocular, que pode ocorrer semanas ou meses após o início do tratamento. 

Com o tempo, se não detectado, o aumento persistente da PIO causa dano progressivo ao nervo óptico, resultando em perda gradual do campo visual. Nesse estágio, os sintomas podem incluir visão embaçada, halos coloridos ao redor das luzes e, em casos graves, dor ocular. Infelizmente, a perda de fibras nervosas é irreversível.

O diagnóstico é feito por meio de medição da pressão intraocular (tonometria), exame do nervo óptico (oftalmoscopia) e avaliação do campo visual. Por isso, é fundamental que pacientes em uso crônico dessas medicações realizem acompanhamento oftalmológico regular.

Prevenção e conduta 

A prevenção é a melhor estratégia. Sempre que possível, deve-se usar a menor dose eficaz pelo menor tempo necessário. Em usuários crônicos, recomenda-se:

  • Avaliação oftalmológica antes de iniciar o tratamento prolongado com corticoides;
  • Monitoramento periódico da pressão intraocular (a cada 1 a 3 meses, conforme o risco);
  • Substituição do corticoide por outra classe terapêutica quando viável;
  • Uso de colírios anti-hipertensivos (como beta-bloqueadores ou análogos de prostaglandinas) caso a PIO esteja elevada.
Close de homem usando colírio com corticoides.

O glaucoma induzido por corticoides é uma condição potencialmente grave, mas amplamente evitável com acompanhamento adequado. O uso prolongado desses medicamentos não deve ser interrompido sem orientação médica, sob risco de descontrole da doença de base. 

No entanto, todo paciente em terapia corticosteroide crônica deve ser alertado sobre os riscos oculares e submetido a exames periódicos. O tratamento precoce da hipertensão ocular pode prevenir danos irreversíveis à visão, reforçando a importância da integração entre o especialista que prescreveu o corticoide e o oftalmologista. 

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